sábado, 4 de junho de 2016

Sarney recebeu 19 milhões de reais de propina da Transpetro, destaca reportagem de Veja

Há pelo menos um ano o cearense Sérgio Machado, ex-presidente da estatal Transpetro, era visto no alto-comando da Operação Lava-Jato como o atalho perfeito para chegar a tubarões do esquema de corrupção na Petrobras – em especial a cúpula do PMDB no Senado. Os procuradores traçaram uma meta: precisavam convencê-lo a colaborar com as investigações. Mas Machado, ex-senador, político experimentado, bom conhecedor do submundo da política, sempre escapulia. Não era segredo que, ao longo dos doze anos em que esteve no comando da Transpetro por indicação do presidente do Senado, Renan Calheiros, a estatal encarregada de distribuir a produção da Petrobras servira como uma eficiente fonte de arrecadação de propinas e financiamento de campanhas eleitorais. Assim como na empresa-mãe, cobravam-se comissões de empresas prestadoras de serviços. Mapear essa perna do petrolão era fundamental. Agora se sabe por quê.

As gravações de conversas entre Sérgio Machado e seus aliados do PMDB já provocaram a queda de dois ministros, Romero Jucá, do Planejamento, e, na semana passada, Fabiano Silveira, da Transparência. Foi apenas uma amostra do que a delação de Sérgio Machado pode produzir. As revelações mais graves e explosivas ainda estão por vir, e vão implodir a cúpula do PMDB, o partido que dividiu com o PT os lucros do Petrolão. Em depoimentos prestados à Lava-Jato, e mantidos até agora em segredo, Machado contou ter destinado pelo menos 60 milhões de reais em propinas ao presidente do Congresso, Renan Calheiros, ao também senador Romero Jucá e ao ex-presidente José Sarney. Não foi uma acusação genérica, como muitas que têm sido feitas. Além de explicar a origem do dinheiro, o delator indicou aos investigadores o nome do cidadão que, sob suas ordens, era encarregado de fazer a entrega pessoal do dinheiro aos peemedebistas.

O homem da mala chama-se Felipe Parente, também cearense. Foi escolhido pelo próprio Sérgio Machado para desempenhar a missão. Trabalhava havia anos com um dos filhos do ex-presidente da Transpetro e, nessa condição, uma década atrás atuava como emissário para as operações clandestinas de coleta e entreva da propina. Não é a primeira vez que Felipe Parente aparece no radar da Lava-Jato. Na delação de Ricardo Pessoa, dona da empreiteira UTC, ele já havia sido apontado como o coletor de uma propina de 1 milhão de reais cobrada por Sérgio machado para que a Transpetro liberasse pagamentos atrasados de um contrato de reforma de tanques de estocagem de combustível. A engrenagem funciona assim: para liberar os pagamentos de serviços prestados à Transpetro, Machado cobrava um porcentual das empresas e, depois de paga, a propina era então entregue a Felipe Parente.

O traquejo de operador eficiente e cuidadoso permitiu que Sérgio Machado passasse anos à frente da Transpetro sem deixar vestígios do que fazia a portas fechadas. Nas negociações, ele só falava com os donos de empreiteiras. Não aceitava conversar com intermediários. Em seu gabinete, adotava cuidados especiais para evitar flagrantes indesejados. Tinha um sistema antigrampos para impedir que suas conversas fossem registradas. Com a evolução da Lava-Jato, Machado foi aos poucos sendo cercado. Citado em deleção premiadas como beneficiário de propinas, ele insistia em negar. Jurava ser inocente, vítima de calúnias de delatores como Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, e Ricardo Pessoas, da UTC. Mas a Lava-Jato descobriu um ponto sensível capaz de dobrá-lo. Rastreando a rota do dinheiro do petrolão no exterior, a operação chegou a transações realizadas por um dos filhos de Machado, controlador de um fundo bilionário sediado em Londres. Era o que faltava para convencê-lo a ceder.

Em mais de uma dezena de conversas no Rio e em Fortaleza, primeiro com intermediários de depois com o próprio Sérgio Machado, os investigadores foram alinhavando o que viria a ser mais uma delação explosiva – aquela que, finalmente, levaria à velha-guarda do PMDB, responsável por apadrinhá-lo. Para além da coleção de áudios gravados às escondidas com seus antigos parceiros, Machado prestou mais de dez horas de depoimentos em que revelou as minúcias do propinoduto que operava. Disse que o mesmo emissário que coletava a propina, Felipe Parente, também era encarregado de dar o destino final ao dinheiro. Foi por meio desse expediente que Machado fez chegar os 60 milhões de reais em propinas a Renan, Jucá e Sarney. Ele acrescentou: só ao ex-presidente Sarney destinou 19 milhões de reais. Machado também contou que, além de ordenar as entregas de propina aqui no Brasil, guardava dinheiro no exterior para políticos, entre eles Renan Calheiros. Os acusados negam ter recebido propina. Talvez delações particularmente reveladoras nem fossem mais necessárias, depois das de Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro. Mas elas não param de pipocar.

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