quarta-feira, 27 de julho de 2016

Polícia investiga suspeita de crime encomendado em morte de jornalista em Goiás

Dono de site de notícias é morto a tiros em Santo Antônio do Descoberto. Ele era pré-candidato a vereador em outubro
A Polícia Civil de Goiás trabalha com a linha de crime encomendado para o assassinato do jornalista João Miranda do Carmo, 54 anos, em Santo Antônio do Descoberto (GO), distante 49km do Plano Piloto. Ele morreu na noite de domingo, após homens estacionarem na porta da casa dele. Os algozes confirmaram o nome do jornalista antes de atirar. A vítima tinha um site de notícias, em que publicava informações contra o governo e denunciava casos de tráfico de drogas no município goiano localizado no Entorno. Além do trabalho como repórter, João Miranda pretendia ingressar na política. Chegou, inclusive, a realizar a pré-candidatura para concorrer a vereador em Santo Antônio do Descoberto.

Ainda não se sabe quantas pessoas teriam atirado contra João, que levou sete tiros. Investigação preliminar aponta que pelo menos dois homens estavam armados. Testemunhas ouvidas pela reportagem afirmaram que um Palio vermelho parou em frente à residência. Enquanto o motorista permaneceu dentro do veículo, outro rapaz se aproximou do portão e chamou a vítima. Ao aparecer na varanda, o jornalista acabou atingido. Os criminosos fugiram em seguida. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado, mas, quando chegou ao local, João Miranda estava morto.

De acordo com o soldado da Polícia Militar de Goiás Alisson Assis, o enteado do jornalista já havia relatado à corporação que o padrasto “sofreu inúmeras ameaças de morte, sempre por causa da profissão que exercia”. O carro de João Miranda havia sido incendiado no começo do ano, como um sinal de alerta, para que ele parasse de “tocar em certos assuntos”, contou a PM de Goiás.

Dono do site de notícias S.A.D sem censura e pré-candidato a vereador pelo PCdoB, o jornalista produzia matérias com denúncias contra adversários políticos, como o atual prefeito de Santo Antônio do Descoberto, Itamar Lemes do Prado, que não foi localizado pela reportagem. Em nota, ele afirmou que “o prefeito e toda a sociedade santoantoniense se encontram perplexos com a notícia da morte do morador, blogueiro e pai família João Miranda, e lamentamos profundamente essa trágica e inestimável perda”. Ainda segundo o comunicado de Itamar, a Polícia Civil está sendo cobrada para apurar “esse trágico crime”.

Uma vizinha de João Miranda testemunhou a execução e acredita que o caso tenha sido provocado por desavenças políticas. “Ele era uma pessoa de bem. Não aumentava a voz sequer para os que o faziam mal. O único crime cometido por João foi denunciar as mazelas da cidade”, contou a mulher, que mora no bairro Morada Nobre há sete anos.

Amiga da vítima, Arquilene Mota, 38 anos, avalia que é prematuro apontar culpados no momento. “Os tiros podem ter partido de qualquer inimigo. Por isso, devemos aguardar o fim das investigações”, comentou. Segundo Arquilene, João teve uma trajetória de vida muito bonita. “Com poucos recursos, dava voz aos necessitados. Devido ao destaque obtido com um blog de denúncias locais, atingia muitas pessoas”, acrescentou.

A Polícia Civil já realizou os exames cadavéricos. Mas, por causa do feriado estadual ontem, as investigações acabaram interrompidas. Até o fechamento desta edição, ninguém havia sido preso.

Em nota, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) lamentaram o assassinato de João Miranda. As entidades ressaltaram, ainda, que, além da punição dos responsáveis, é necessário que empresas de comunicação e forças de segurança do país implementem medidas preventivas. Já a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) exige celeridade nas investigações e punição exemplar para os assassinos. “É inadmissível que, em um país democrático, um jornalista seja friamente assassinado por sua atuação profissional ao cumprir a função de informar o cidadão. Esse tipo de violência coloca em risco um dos direitos fundamentais da sociedade: a liberdade de expressão.”

Nota da Fenaj e Sindicatos dos Jornalistas de Goiás

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Goiás e a Federação Nacional dos Jornalistas lamentam o brutal assassinato do jornalista João Miranda do Carmo, ocorrido neste domingo em Santo Antônio do Descoberto, e espera que as autoridades cumpram com o seu dever de esclarecer as circunstâncias, punindo os responsáveis com o rigor da lei.

Responsável pelo blog “SAD Sem Censura” com denúncias locais, João Miranda era também dirigente do PCdoB. As entidades representativas dos jornalistas em Goiás e no Brasil se solidarizam com os familiares.

Além da ação policial e judiciária para captura e punição dos responsáveis, é preciso que se tomem medidas preventivas tanto pelas empresas de comunicação quanto pelas forças de segurança do país para dar um basta nessa situação. Nesse sentido, a Fenaj vem propondo a instituição de um protocolo de segurança que permita as condições necessárias para o exercício do Jornalismo e para a garantia das liberdades de expressão e de imprensa no Brasil.

Goiânia, 25 de julho de 2016.

Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Goiás
Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ

Nota da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)

No último domingo (24.jul.2016), o jornalista João Miranda do Carmo foi assassinado em Santo Antônio do Descoberto (GO). Dois homens atiraram contra ele na porta de sua casa, atingindo-o pelo menos sete vezes no peito. Carmo mantinha o site SAD Sem Censura, em que cobria crimes, problemas e política da cidade.

Segundo familiares do jornalista, ele já havia sofrido ameaças por causa do que publicava. No final de 2014, em uma ocorrência ainda não esclarecida, seu carro foi incendiado.

O delegado responsável pelo caso, Pablo Santos Batista, não descarta que o assassinato tenha sido motivado pela atividade de Carmo no site. Uma das linhas de investigação da Polícia Civil é de que o crime foi encomendado.

A Abraji reivindica às autoridades policiais de Goiás que realizem uma investigação rápida para determinar se João Miranda do Carmo foi assassinado em retaliação ao exercício do jornalismo, sob pena de contribuirem para o cerceamento da liberdade de imprensa e expressão na região por meio do medo.


Diretoria da Abraji, 26 de julho de 2016.

Com informações do Correio Braziliense

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