sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Dilma ironiza Temer: não se acha golpista?

Em coletiva à imprensa internacional ao lado do advogado José Eduardo Cardozo, Dilma Rousseff destacou que "há uma grande inconformidade dos golpistas com a palavra golpe", um dia depois de Michel Temer ter dito que não irá tolerar ser chamado de golpista
A ex-presidente Dilma Rousseff comentou pela primeira vez nesta sexta-feira (2), em uma entrevista coletiva à imprensa internacional, no Palácio da Alvorada, o fatiamento da votação do processo de impeachment que manteve seus direitos políticos e de ocupar cargos públicos nos próximos oito anos.

"No processo de votação, eles se desnudam. Eu sei que tinham muitos senadores indecisos, desconfiados que esse processo não era o que pintava. Mas sei também que o governo interino fez uma enorme pressão [para conseguir votos]", disse. Para Dilma, "o segundo voto é o voto daqueles que não consideram que cabiam uma punição. São senadores que estavam indecisos que sofreram pressões".

"Essa cassação é de fato uma pena principal. Você já afasta uma pessoa sem crime de responsabilidade. E depois tira os direitos também sem crime de responsabilidade? E aí?", questionou. "Eu não acho que atenua ou não atenua o que fizeram. Acho que são detalhes em decorrência do que fizeram. O ato é que me condenaram a uma morte política, que é a retirada do meu mandato", condenou, completando que a "dupla votação" – no caso, a mudança do resultado – é "estranhíssima". "É no mínimo estranho", opinou.

Um dia depois da primeira fala de Michel Temer como presidente da República, dizendo que não irá tolerar ser chamado de golpista, Dilma afirmou que "há uma grande inconformidade dos golpistas com a palavra golpe. Tenta-se de todas as maneiras evitar que fique evidente o caráter desse processo". "É um golpe parlamentar, mas é um golpe", lembrou.

Dilma também condenou a repressão da polícia às manifestações contra o governo Temer que vêm ocorrendo nos últimos dias. "Nós sempre convivemos com manifestações democráticas, nunca reprimimos, como está ocorrendo nesse momento", observa. "É assim que se começam as ditaduras, e não precisam ser só militares, podem ser civis disfarçadas", alerta a petista.


Afirmando que ficará "alerta" em relação à violência nos atos, Dilma disse também que não se pode aceitar que se digam que "a culpa é dos manifestantes". "Isso não se pode deixar acontecer", defendeu. Nesta sexta, os jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo publicaram editoriais chamando os manifestantes de "fascistas" e pedindo maior repressão da polícia de Temer contra eles.

"A força do estado é muito maior do que a força das pessoas, o terrorismo de estado é gravíssimo, o estado não pode fazer isso principalmente porque vivemos numa democracia e também porque a poder do estado é muito forte", reforçou.

Dilma também fez críticas à cobertura da mídia brasileira sobre o processo de impeachment e destacou a importância de veículos internacionais e das redes sociais na visão de que se trata de um golpe o que ocorreu no Brasil. "Agora não vão poder dizer que o New York Times é petista, ou que o Le Monde é petista. É muito importante o que aconteceu e o papel da mídia internacional no Brasil", disse.

Sobre o que falou Janaína Paschoal

A ex- afirmou que não tem "respeito" por Janaina Paschoal, advogada que foi um dos autores do pedido de impeachment que a tirou do cargo.

Durante discurso da acusação no julgamento final de impeachment, na terça-feira (30), Janaina Paschoal disse que queria pedir "desculpas" a Dilma.

"Eu peço desculpas porque eu sei que, muito embora esse não fosse o meu objetivo, eu lhe causei sofrimento. E eu peço que ela [Dilma], um dia, entenda, que eu fiz isso pensando, também, nos netos dela", afirmou a advogada.

"Não respeito uma pessoa capaz de falar o que ela falou", afirmou Dilma. "O comportamento da doutora é um comportamento de uma pessoa cujas convicções não se parecem com as minhas, nem do ponto de vista político, nem do ponto de vista cultural, nem do ponto de vista humano", disse Dilma.

"Para os meus netos, eu quero um Brasil democrático, cheio de oportunidades. Eles terão. E não é por conta da doutora Janaina", completou.

Futuro
A ex-presidente também foi questionada sobre seu futuro, uma vez que o Senado não cassou seu direito a ocupar cargos públicos. "Eu não vou fazer planos de hoje para amanhã. Eu sempre fiz política na minha vida, mas não tenho um projeto ainda elaborado", declarou. "Mas eu tenho a disposição de contribuir dentro das minhas possibilidades para que o Brasil seja um país mais justo e democrático. Farei oposição  a esse governo."

Ela foi questionada se se mudaria para o Rio de Janeiro. Dilma disse que, inicialmente, irá a Porto Alegre, mas confirmou que sua mãe "tradicionalmente" mora no Rio de Janeiro.

Recurso ao STF
Dilma afirmou que vai recorrer a "todas as instâncias" para tentar reverter seu impeachment.

"Importa muito, nós queremos ganhar, mas além de querer ganhar nós queremos que as instituições se fortaleçam, e só se fortalecerão se elas tiverem posição", disse a ex-presidente.

Cardozo confirmou que vai entrar com novo recurso no STF na semana que vem, alegando "violação ao direito de defesa".

Segundo o advogado, ele vai citar no recurso o fato de que muitos senadores já tinham declarado seu voto a favor do impeachment antes do julgamento final e que, segundo Cardozo, alguns chegaram a afirmar que não mudariam de posição, independentemente da defesa.

A defesa também vai alegar falta de motivo ou justa causa para o impeachment.

"Consideração" por Lula
Dilma Rousseff ainda afirmou que não tem "nenhuma mágoa do PT", e negou que tenha qualquer tipo de problema de relação com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


"Por ele (Lula) tenho imensa consideração, além de política como pessoal", disse Dilma.

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