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sábado, 24 de dezembro de 2016

Obra sobre compra de votos surpreende e esclarece o leitor

Por NAIEF HADDAD
FOLHA DE SAO PAULO

Uma passada de olhos sobre uma livraria deixa ver "A República da Propina" em meio a biografias do juiz Sérgio Moro. Pode parecer mais uma obra lançada em virtude do barulho da Lava Jato. Não é o caso, porém.

Advogado especialista em direito eleitoral e um dos criadores da Lei da Ficha Limpa, Márlon Reis esbarra na promiscuidade das relações entre políticos e empresários, comportamento que está no centro das investigações da força-tarefa de Curitiba. Mas não está aí seu principal alvo.

Como diz nas primeiras linhas do prefácio, "somos culpados pela eleição das pessoas que deploramos". Ou seja, a realidade política brasileira também é fruto da leviandade dos eleitores, seja por desatenção, seja por oportunismo, principalmente.

O livro ganha interesse ao explorar episódios insólitos que Márlon tem acompanhado de perto há quase 20 anos.

Esses casos não surgem em livro-reportagem ou obra acadêmica. Aparecem por meio da história de Cacá Furtado, sujeito graduado em geografia que entra para o serviço público disposto a agir com o rigor imposto por uma consciência moldada no centro acadêmico da faculdade.

Não demora, contudo, para que suas convicções arrefeçam. Torna-se assessor do deputado Cândido Espinheira em um primeiro passo de ascensão na carreira política.

Ainda que nomes, locais e datas sejam fictícios, os episódios não vêm da imaginação do autor.

Em um deles, Dona Esmeralda prometeu votar em Tibiriçá, candidato a prefeito, desde que recebesse um tanque de lavar roupa. Ganhou.

Após a derrota nas urnas, Tibiriçá soube que ela estava na festa da vitória do adversário. Transtornado, ordenou que seus capangas acertassem as contas com Dona Esmeralda, que dizia, aos berros, que era sua irmã gêmea, Ametista, quem festejava.

Não adiantou. Além de arrancar o tanque, os brucutus mataram os gatos da mulher.

Embora sejam frequentes, casos assim não são os mais eficientes. Esse é o varejo, mas, como ensina Cacá Furtado, é preciso operar no atacado. "Como se compram votos de baciada? Aliciando pessoas influentes na comunidade", diz o personagem.

A partir desse ponto, Furtado se relaciona com o que chama de "intermediários", especialmente sindicalistas, líderes evangélicos e blogueiros, cujas estratégias de manipulação são distintas, mas igualmente detestáveis.

A bem da verdade, "República da Propina" incomoda com platitudes. "Aqui, convivemos dia a dia com amostras de que ser honesto equivale a ser otário" é uma delas.

Mas prevalece a capacidade de surpreender e esclarecer o leitor sobre um sistema danoso de troca de favores.

Iniciativas para alterar esse quadro podem nascer da sociedade civil, como aconteceu com a Ficha Limpa. Mas a adesão do Poder Executivo faria a diferença. FHC, Lula e Dilma prometeram reformas políticas, mas os avanços foram tímidos. Temer fará algo?

A REPÚBLICA DA PROPINA
AUTOR Márlon Reis
EDITORA Planeta

QUANTO R$ 35 (173 págs.)

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