domingo, 2 de dezembro de 2018

Bolsonaro entrega governo às Forças Armadas

Dos 20 ministros de Bolsonaro, oito são militares e três têm relação com as Forças Armadas. Entre os civis, maioria é político investigado; conheça cada um deles

Por Julinho Bittencourt e Renato Rovai

Até sexta-feira ás 19h, Bolsonaro já havia indicado 20 ministros para compor o seu governo. Em campanha ele anunciou no máximo 15 ministérios. Deles, oito são militares de carreira e três têm relação com as Forças Armadas, como o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que é político, mas foi médico militar, no posto de tenente, no Hospital Central do Exército (HCE).

Os anúncios confirmam a tese de que o novo governo será essencialmente militar e que os riscos de politização das Forças Armadas com o comando do executivo sendo entregue a generais pode fazer com que o país venha a sofrer um golpe de Estado caso decisões tomadas pelo governo venham a ser contestadas nas ruas.

A escolha do juiz Sérgio Moro para um ministério com esta coloração não foi por acaso. Ela visa garantir um acordo tácito com a Lava Jato e com parte da Justiça brasileira que tem o curitibano como referência.

Além disso, Moro está trazendo para o seu ministério em cargos de alto escalão diversos delegados da Polícia Federal, órgão estratégico para operações que podem encurralar adversários políticos.

Por outro lado, se Bolsonaro não terá problemas com o Congresso no primeiro momento por conta da chamada lua de mel que governantes recém eleitos costumam ter, no médio prazo há crise à vista. Muitos partidos políticos não foram contemplados com cargos importantes e, inclusive, aliados de primeira hora, como o senador Magno Malta (PR) ficaram a ver navios.

Até esta decisão de alto risco, se vista de uma maneira mais ampla, pode ser um recado. A aliança prioritária de Bolsonaro é com as Forças Armadas e num segundo plano com a Justiça e a PF. E o resto que engula isso ou que se arrisque a ir para oposição, onde terá tratamento semelhante ao que o PT tem tido desses poderes.

A seguir, conheça o ministério anunciado por Bolsonaro que ainda deve ter mais duas indicações durante os próximos dias.

Onyx Lorenzoni (Casa Civil) – Médico veterinário, luterano, pai de quatro filhos, 64 anos. Foi nomeado Ministro de Estado Extraordinário para coordenar a equipe de transição do futuro governo de Jair Bolsonaro. Ele está no quarto mandato como deputado federal e foi reeleito. Em 2017, admitiu ter recebido R$ 100 mil em caixa 2 da JBS. Foi o primeiro líder do partido DEM na Câmara dos Deputados do Brasil.

Paulo Roberto Nunes Guedes (Economia) – Economista de 69 anos defende a menor participação possível do Estado na economia. Nascido no Rio de Janeiro, formou-se em economia e fez doutorado na Universidade de Chicago (EUA). Nunca teve cargo público e fez fortuna no mercado financeiro. É um dos fundadores do Banco Pactual, além de ter fundado e dirigido fundos de investimentos e empresas. Foi colunista dos jornais O Globo e Folha de S. Paulo e das revistas Época e Exame, além de ter sido um dos fundadores do Instituto Millenium, onde escreve regularmente.

Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública) – O juiz de 46 anos ganhou projeção nacional ao julgar processos da Operação Lava Jato na 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba (PR). Nascido em Maringá (PR), formou-se em Direito e tem mestrado pela Universidade Federal do Paraná. Antes da Lava Jato, trabalhou em casos como o escândalo do Banestado e a Operação Farol da Colina. Também auxiliou, no Supremo Tribunal Federal, a ministra Rosa Weber durante o julgamento dos crimes relativos ao escândalo do Mensalão. Moro é acusado de lawfare no processo que levou Lula à cadeia. Suas posições assumidamente políticas durante o processo, como se deixar fotografar em situações de intimidade com Aécio Neves, e ter liberado a delação de Palocci no final do segundo turno, o que favoreceu o candidato de quem agora ele é ministro, Jair Bolsonaro, tiraram sua condição de atuar como juiz em casos relativos a Lula na opinião de muitos juristas de todo o mundo.

General Augusto Heleno (Segurança Institucional) – O militar de 71 anos chegou a ser cotado para vice na chapa e ministro da Defesa, mas assumirá a pasta da Segurança Institucional. Na reserva desde 2011, chefiou a missão de paz das Nações Unidas no Haiti e foi comandante militar da Amazônia. Em 2008, Lula chamou sua atenção por criticar a política indigenista do governo que, segundo ele era “caótica” e lamentável”. “A política indigenista brasileira está completamente dissociada do processo histórico de colonização do nosso país. Precisa ser revista com urgência. É só ir lá ver as comunidades indígenas para ver que essa política é lamentável, para não dizer caótica”, disse na época o general.

Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) – O primeiro e único astronauta brasileiro a ir ao espaço é tenente-coronel da Força Aérea Brasileira (FAB), atualmente na reserva. Filiado ao Partido Social Liberal (PSL), em outubro de 2018, foi eleito segundo suplente de senador na chapa encabeçada pelo Major Olímpio. Paulista de 1963, tem mestrado em Engenharia de Sistemas e é engenheiro aeronáutico.

Tereza Cristina (Agricultura) – Atual presidente da bancada ruralista, é engenheira agrônoma e empresária. No Mato Grosso do Sul, ocupou o cargo de gerente-executiva em secretarias estaduais. Foi secretária de Desenvolvimento Agrário da Produção, da Indústria, do Comércio e do Turismo de Mato Grosso do Sul durante o governo de André Puccinelli (MDB). Neste ano, Tereza Cristina foi uma das lideranças que defenderam a aprovação do Projeto de Lei 6.299, que flexibiliza as regras para fiscalização e aplicação de agrotóxicos no país. Por conta disto, ficou conhecida como a rainha do veneno.

General Fernando Azevedo e Silva (Defesa) – O militar da reserva de 64 anos foi chefe do Estado-Maior do Exército e de Operações na Missão da ONU no Haiti. Atualmente, assessora o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli. Ingressou no Exército em 17 de fevereiro de 1973, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) onde, em 14 de dezembro de 1976, foi declarado Aspirante-a-Oficial da Arma de Infantaria. Serviu no então 2º Batalhão de Caçadores, em São Vicente – SP. Foi promovido ao posto de 2º Tenente em 31 de agosto de 1977 e a 1º Tenente em 25 de dezembro de 1978. Posteriormente, veio para a Brigada de Infantaria Paraquedista, onde passaria boa parte de sua carreira.

Ernesto Araújo (Relações Exteriores) – É diplomata de carreira há 29 anos. Atualmente, é diretor do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos. Nascido em Porto Alegre, formou-se em letras pela Universidade de Brasília. É filho de Henrique Fonseca de Araújo (PL), ex-Procurador-Geral da República e ex-deputado estadual do Rio Grande do Sul. Seu tio, Ernesto de Araújo, foi Almirante da Marinha do Brasil e diretor da Escola Superior de Guerra. É casado com a também diplomata Maria Eduarda de Seixas Corrêa, com quem tem uma filha, e é genro de Luiz Felipe de Seixas Corrêa, embaixador e ex-secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty). É conhecido por suas posições de extrema direita, ocidentalista e alinhamento a Trump. Diz que pautará sua atuação pelo combate a políticas que compactuam com o que classifica como “alarmismo climático”, “pautas abortistas e anticristãs em foros multilaterais” e a “destruição da identidade dos povos por meio da imigração ilimitada”. É autor de um blog onde se assumia militante pró-Bolsonaro durante a campanha e foi indicado para ministro por Olavo de Carvalho, astrólogo que fez sucesso no youtube se afirmando filósofo.

Marcelo Álvaro Antônio (Turismo) – Nascido em Belo Horizonte, foi reeleito deputado como o mais votado de Minas Gerais. É filiado ao PSL e integra a bancada evangélica. Votou a favor do prosseguimento da denúncia contra o presidente Michel Temer para o STF. Responde a cerca de 20 processos no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, dos quais um é por crime contra a economia popular. Foi acusado de vender lotes que não lhe pertenciam e que também não estavam aprovados pela prefeitura.

Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior (Minas e Energia) – É Almirante de Esquadra e Diretor Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha. Nasceu no Rio de Janeiro e iniciou a carreira na Marinha em 1973. Ele ocupou cargos como: Observador Militar das Forças de Paz da Organização das Nações Unidas de Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina; e de Dubrovnik, na Croácia, ex-Iugoslávia. Foi também Assessor Parlamentar do Gabinete do Ministro da Marinha no Congresso Nacional, assessor parlamentar do ministro da Marinha no Congresso e comandante dos submarinos Tamoio e Toneleiro. O almirante tem pós-graduação em Ciência Política pela Universidade de Brasília e MBA em gestão pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Wagner Rosário (Transparência e CGU) – É o atual ministro da Transparência e CGU e permanecerá no cargo. Natural de Juiz de Fora (MG), é graduado e pós-graduado em ciências militares, respectivamente, pela Academia Militar das Agulhas Negras (1996) e pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército (2004). Também possui pós-graduação em Fisiologia do Exercício pela Universidade Gama Filho (2003), tendo ainda se graduado em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército (2000). Experiência na área de Combate e prevenção à corrupção, com ênfase em investigação administrativa e investigações conjuntas com os demais órgãos de defesa do Estado, em casos de corrupção e fraudes.

Luiz Henrique Mandetta (Saúde) – Cursou medicina no Rio de Janeiro, fez residência em ortopedia ne especialização em ortopedia nos EUA. Foi médico militar, no posto de tenente, no Hospital Central do Exército (HCE), presidiu a Unimed de Campo Grande (MS) e comandou a Secretaria de Saúde local. É primo do Senador Nelson Trad Filho, do Deputado Federal Fábio Trad, do Prefeito de Campo Grande Marquinhos Trad e do Vereador de Campo Grande Paulo Siufi Net.

André Luiz de Almeida Mendonça (AGU) – Advogado com pós-graduação em Direito pela Universidade de Brasília, em 2016 se tornou corregedor-geral da AGU. Foi advogado concursado da Petrobras e, atualmente, é consultor jurídico da CGU, além de pastor auxiliar em uma igreja evangélica.

Gustavo Bebbiano (Secretaria Geral da Presidência) – O advogado de 54 anos é um dos conselheiros do presidente eleito e foi uma das figuras mais próximas dele durante a campanha. Presidiu o PSL até outubro passado.

Ricardo Vélez Rodríguez (Educação) – Nascido na Colômbia, está no Brasil desde 1979. É professor aposentado da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Atualmente, é professor emérito da Escola de Comando do Estado Maior do Exército. Também conhecido por posições ultradireitistas, é defensor do projeto Escola sem Partido e contra a Educação de Gênero. Foi indicado ao cargo pelo astrólogo Olavo de Carvalho.

Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo) – Natural de Rio Grande (RS), 66 anos, é engenheiro e general. Comandou as missões de paz da ONU no Haiti e no Congo, além de chefiar a Secretaria de Segurança Pública na gestão de Michel Temer. Vai dividir com Onyx Lorenzoni a articulação política do governo no Congresso.

Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura) – Formou-se em Ciências Militares pela Academia Militar dos Agulhas Negras (AMAN), mesma instituição frequentada por Bolsonaro e pelo seu futuro vice-presidente Hamilton Mourão, e foi do Exército por quase 17 anos alcançando a patente de capitão. O futuro ministro é Secretário de Coordenação de Projetos da Secretaria-Geral da Presidência da República do governo Temer e consultor legislativo da Câmara dos Deputados. Chefiou a seção técnica de engenharia das Nações Unidas no Haiti e atuou como coordenador de auditorias em transportes na CGU.

Gustavo Canuto (Desenvolvimento Regional) – É formado em engenharia da computação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em direito pelo UniCeub (Centro Universitário de Brasília). É integrante da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG) e não tem filiação partidária. Sua trajetória incluiu passagens pelas Secretarias de Aviação Civil e Geral da Presidência da República, além da Agência Nacional de Aviação Civil.

Osmar Terra (Cidadania) – Ministro do Desenvolvimento Social entre maio de 2016 e abril deste ano, Terra é médico e deputado pelo MDB-RS e ex-prefeito de Santa Rosa (RS), além de ex-secretário da Saúde do RS. Se elegeu para o quinta mandato de deputado federal.

Roberto Campos Neto (Banco Central) – É diretor do Santander. Graduou-se em economia com especialização em economia com ênfase em finanças, cursos realizados na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Trabalhou no banco de investimento Bozano Simonsen, do qual Paulo Guedes foi acionista, de 1996 a 1999. É neto do diplomata Roberto Campos (1917-2001), defensor do liberalismo, crítico do comunismo e que foi um dos ideólogos da economia da ditadura militar no Brasil de 64 a 85.
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