Prefeitura de São Luís

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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Haddad: "Não tenham medo, nós estaremos aqui. Eu coloco a minha vida à disposição desse país"


Em seu discurso após perder as eleições, o petista pediu coragem, agradeceu aos mais de 45 milhões de votos: "trata-se de uma parte expressiva da população que precisa ser respeitada"

Num tom conciliador, de otimismo e resistência, Fernando Haddad, candidato do PT que perdeu as eleições presidenciais, pediu coragem aos mais de 45 milhões de eleitores que votaram neste domingo 28. "Andando por todo esse Brasil senti no rosto de muitos brasileiros angustia e medo. Para eles eu quero dizer: não tenham medo, nos estaremos aqui. Lutem conosco, a vida é feita de coragem".

Num discurso de pouco mais de dez minutos, feito do hotel em São Paulo de onde acompanhou a apuração dos votos, a palavra coragem pontuou a ocasião em diversos momento. Logo no início da fala, ao agradecer correligionários e aliados, mencionou seus antepassados, aos quais atribuiu o aprendizado do valor da coragem na defesa da justiça. "A coragem é um valor muito grande quando se vive em sociedade".

Diferenciando-se dos discursos clássicos de quem perde a eleição, Haddad não reconheceu explicitamente a derrota ou parabenizou o vencedor. Em seu Twiiter, a jornalista Natuza Nery disse ter perguntado a Haddad a razão de não ter telefonado para Jair Bolsonaro. A resposta dele: “Ele me chamou de canalha e disse que se eleito mandaria me prender”. “Achei que não tinha o menor clima além de não poder prever a reação”.

Haddad agradeceu aos mais de 45 milhões de votos que recebeu e lembrou que trata-se de uma parte expressiva da população que precisa ser respeitada. "São pessoas que têm outro projeto de Brasil e merecem respeito. Muita gente não é de partido, de associação, vimos a festa da democracia tomar as ruas. Pessoas que passaram a dialogar e reverter um quadro que se anunciava. Houve uma reversão importante sobre o que está em jogo", afirmou, se referindo ao movimento vira-voto.

O ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação afirmou que o País já vive um período longo em que as instituições são colocadas a prova. Começou em 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff, depois com a prisão do ex-presidente Lula e depois com o registro de usa candidatura, desrespeitando uma orientação da ONU. "Seguimos com determinação e coragem, levando nossa mensagem a todo o País, a todos e todas", disse, reforçando o respeito à diversidade sexual, racial e religiosa.

Haddad disse ainda que a democracia é um valor que está acima de todos, que precisa ser defendido daqueles que "de forma desrespeitosa pretendem usurpar o patrimônio de todos os brasileiros: os direitos civis, políticos, trabalhistas e sociais". Para ele, "tudo em jogo neste momento e temos a tarefa enorme que é, em nome da democracia, defender o pensamento e as liberdades de 45 milhões. Fazer oposição colocando os interesses do povo acima de tudo... reconhecemos a cidadania em cada brasileiro e brasileira e não vamos deixar esse País para trás, defendendo nosso pontos respeitando a democracia e as instituições diante de tudo que está em jogo".

O momento mais aplaudido foi quando, parafraseando o hino nacional disse: verão que um professor não foge à luta e nem teme quem adora a liberada à própria morte. "O compromisso é com a vida."

Haddad conclui sua fala afirmando que em quatro anos teremos eleição e "não vamos deixar de exercer nossa cidadania. Temos que fazer uma profissão de fé de que vamos nos reconectar com as bases e com os mais pobres para oferecer um programa de nação que há de sensibilizar mentes e corações".

Leia a íntegra o discurso de Haddad:

Boa noite a todos vocês. Estela, Manuela, Lucca, meus filhos, minha mãe, minhas irmãs, todos os companheiros de todos os partidos presentes. Queria saudar em especial Guilherme Boulos, que foi candidato a presidente, companheiros do PSB, Psol, presidenta Dilma, senador Suplicy, nossos deputados e senadores.

Em primeiro lugar, gostaria, por minha formação, de agradecer aos meus antepassados. Aprendi com meus antepassados o valor da coragem para defender a justiça a qualquer preço. Aprendi com minha mãe, meu pai, aprendi com a memória dos meus avós que a coragem é um valor muito grande quando se vive em sociedade, porque todos os valores dependem dela.

Queria agradecer a todos os partidos que estiveram conosco, a sua militância aguerrida. Primeiro porque nos levou ao segundo turno, depois, porque nos levou a ter 45 milhões de votos hoje. É uma parte expressiva do povo brasileiro, que precisa ser respeitada neste momento. Que diverge da maioria, tem um outro projeto de Brasil e que merece respeito no dia de hoje. 

Sei que entre os 45 milhões de eleitores que nos acompanharam até aqui, muita gente não é de partido político, não é de associação. Sobretudo na última semana o que vimos foi a festa da democracia nas ruas do Brasil. Gente que saiu na rua com colegas, esposa, marido, filhos, que passou a panfletar no país inteiro, que colocou um banco numa praça, colocou cartaz no pescoço e passou a dialogar e reverter o quadro que se anunciava na primeira semana do segundo turno. E houve uma reversão importante, em função da conscientização sobre o que estava em jogo. E era muita coisa que estava em jogo.

Vivemos um período já longo em que as instituições são colocadas a prova a todo instante. A começar de 2016 com o afastamento de Dilma, depois com a prisão injusta do presidente Lula, a cassação do registro de sua candidatura, desrespeitando uma determinação da Nações Unidas, mas seguimos de cabeça erguida, com determinação, com coragem, para levar nossa mensagem aos rincões do país: ao campo e à cidade, às periferias e aos centros, aos estudantes e aos idosos, aos LGBTs, aos homens, mulheres, brancos e negros, evangélicos, àqueles que pertencem a religiões de matriz afro, aos ateus, a todos os brasileiros. 

Nós, de forma determinada, fomos a todos os rincões levar a mensagem que vale a pena levar. De que a soberania nacional e a democracia como nós a entendemos está acima de todos nós. Nós temos uma nação e temos de defendê-la daqueles que de forma desrespeitosa pretendem usurpar o nosso patrimônio, o patrimônio do povo brasileiro.  E entendemos a democracia não só no seu ponto de vista formal, embora isso seja muito importante lembrar no dia de hoje. São os direitos civis, são os direitos políticos, são os direitos trabalhistas e são os direitos sociais que estão em jogo.

Portanto nós temos uma tarefa enorme no nosso país, que é em nome da democracia defender o pensamento e as liberdades destes 45 milhões de brasileiros que nos acompanharam até aqui. Nós temos a responsabilidade de fazer uma oposição colocando os interesses nacionais, o interesse de todo o povo brasileiro, acima de tudo. Por que nós, aqui temos um compromisso com a prosperidade. Nós aqui ajudamos a construir uma das maiores democracias do mundo e temos de ter um compromisso e mantê-la. E não aceitar provocações, e não aceitar ameaças. Vocês verão que a nação, lembrando nosso hino nacional, verás que um professor não foge à luta. Nem teme quem adora a liberdade à própria morte. O nosso compromisso é um compromisso de vida com este país.

Nós temos uma longa trajetória de militância, de vida pública, nós reconhecemos a cidadania em cada brasileiro, em cada brasileira e nós não vamos deixar esse país pra trás. Nós vamos colocá-lo acima de tudo e nós vamos defender os nossos pontos de vista, respeitando a democracia, respeitando as instituições, mas sem deixar de colocar o nosso ponto de vista, sobretudo o que está em jogo no Brasil a partir de agora. E tem muita coisa em jogo e nós precisamos compreender o que está em jogo. Nós temos que fazer uma profissão de fé e que nós vamos continuar nossa caminhada conversando com as pessoas, nos reconectando com as bases, nos reconectando com os pobres desse país, para retecer um plano, um programa de nação que há de sensibilizar mentes e corações desse país.

Daqui a quatro anos nós teremos uma nova eleição, nós temos que garantir as instituições, nós não vamos sair das nossas profissões, dos nossos ofícios, mas não vamos deixar de exercer a nossa cidadania. Vamos estar o tempo inteiro exercendo essa cidadania e talvez o Brasil nunca tenha precisado mais do exercício da cidadania do que agora.

Eu coloco a minha vida à disposição desse país, tenho certeza que falo por milhões de pessoas que colocam o país acima da própria vida, acima do próprio bem-estar e quero dizer pra aqueles que eu olhando nas ruas desse país em todas as regiões, eu senti uma angústia e um medo na expressão de muitas pessoas. Que às vezes chegavam a soluçar de tanto chorar. Não tenham medo. Nós estaremos aqui. Nós estamos juntos. Nós estaremos de mãos dadas com vocês. Nós abraçaremos a causa de vocês! Contem conosco! Coragem! A vida é feita de coragem! Viva o Brasil! Viva o Brasil!

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